segunda-feira, 4 de abril de 2011

A esquizofrenia do FMI

         Portugal está em pré-campanha eleitoral para as eleições legislativas de 5 de Junho, mas, ao contrário do que seria desejável, o debate está centrado no eventual recurso ao Fundo Europeu de Estabilização Financeira e ao FMI e não nas propostas e programas que cada partido se propõe apresentar.
Estamos, é certo, numa situação de emergência financeira, cada vez mais perto de sermos obrigados a pedir ajuda externa, mas esta discussão é esquizofrénica e só nos enfraquece.
Os credores de Portugal mostram uma desconfiança crescente na capacidade do País de cumprir os seus compromissos, desde logo porque o Governo não foi capaz de executar os sucessivos programas de estabilidade apresentados, cada um deles adoptado para responder às exigências dos investidores e dos especuladores. A um PEC, sucedeu-se outro, com objectivos falhados e novas metas. Se a situação já era difícil, agravada com a necessária e inevitável crise política, a discussão em torno do poder do Governo de gestão sobre um eventual, provável, recurso ao FMI só pode ser entendido no quadro de um confronto de responsabilidades políticas.
É óbvio que este Governo tem poderes para recorrer ao fundo se tal se verificar inevitável. Ou vai deixar de cumprir os seus compromissos, nomeadamente o pagamento de salários, e a amortização dos empréstimos que ‘cai' no próximo dia 15? Claro que não. A questão não é constitucional, é política.
Pedro Passos Coelho está a forçar Sócrates a pedir ajuda externa antes das eleições porque, sabe, seria a sua morte política. Mas esta discussão só torna a situação de Portugal mais frágil. Passos Coelho diz estar disponível para governar com o FMI, mas, verdadeiramente, não é uma questão que esteja nas suas mãos. Se for primeiro-ministro, e se Portugal tiver de recorrer a ajuda externa, não terá outro remédio e, sobretudo, vai governar com um plano imposto por terceiros. O recurso ao FMI deve ser evitado. Por razões de reputação do País - quantos anos vamos demorar a recuperar a nossa autonomia e credibilidade - mas também por razões substantivas: o financiamento do Estado ficará assegurado, compensado por mais um PEC que nos fará ter saudades dos PEC anteriores, mas o sector financeiro privado vai sofrer um choque. Os bancos portugueses vão ver o acesso aos mercados limitado por muitos anos ou, no limite, terão ser intervencionados e/ou nacionalizados. E, sem recursos, será mais um travão à economia, e um acelerador do desemprego.
O Governo já demonstrou que vai fazer o que for necessário - nomeadamente ‘operações criativas', como as classificou Teixeira dos Santos - para garantir os fundos financeiros até Junho, outro mês crítico para as contas nacionais com o exterior. O FMI, infelizmente, virá depois. Portanto, prolongar esta discussão, agora, não acrescenta nada ao que os portugueses querem ouvir: as propostas que os partidos, particularmente o PS e o PSD, têm para o futuro do Pais. Do PS, já sabemos o que quer, e o que não foi capaz de fazer. Do PSD, ainda não sabemos o que quer, nem o que será capaz de fazer.
04/04/11 00:08 | António Costa 

MC

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